19 março 2006


O poeta que tanto amo, Mário Quintana, expressou bem o que muitos de nós vivemos no dia a dia. Um dia nos roubam algo aqui, algo ali, um sonho, um direito, uma palavra. E de cada vez, nos matam um pouco. Até que o golpe fatal é quando nos tiram a esperança. Queria escrever algo mais alegre, mas hoje não dá...


DA PRIMEIRA VEZ QUE ME ASSASSINARAM

Da primeira vez em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do Horror! Voejai!
Que luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

- Mário Quintana -

2 comentários:

John D. Godinho disse...

The very first time that I was murdered
I lost my smile, the way I used to be...
Then, each time they came
and I was killed again
They always took something that belonged to me...

Today, of all my bodily remains,
I am the barest corpse with nothing left
The burning flame of a yellowed candle stump
Is the only thing of value that survived the theft!

Come, all you jackals, crows, and highwaymen!
Ah! None will succeed, should you to try to sever
Or wrest from my bony hand the sacred light!

Birds of Night! Wings of Horror! Fly out of sight!
For the burning light, a sad and trembling sigh,
The light of a dead man will never die! Never!

Mario Quintana
(Translated by John D. Godinho)
Sonnet XVII in Pinwheel Street.

Marli disse...

Obrigada!Lindo poema né?